Teófilo Veríssimo
Beto Garcia
- Quem sou eu?
Teófilo perplexo com os olhos esbugalhados, boca aberta cheia de cáries e fiapos de manga entre os dentes, perdia-se entre a incredulidade e ao mesmo tempo uma vontade descomunal de esganar seu interlocutor.
- Então Teófilo, quem sou eu?
Não é possível que toda a minha busca, toda a minha peregrinação, uma vida inteira de aperfeiçoamento espiritual e lapidação intelectual tenham-me feito mendigar nas cidades mais populosas, confundir-me entre o lodo dos pântanos, arrastar minha carcaça descarnada de pele colada nos ossos pelos desertos mais áridos...tudo isto para chegar aqui e ouvir isto.
- Senhor, imaginei mil e um questionamentos para este encontro, vim repleto de dúvidas achando que iria solucioná-las para daí em diante espalhar sua luz pelo mundo, trazendo uma nova era.
Como é que agora você vem com uma destas?
Eu sou Teófilo Veríssimo, filho de Maria Eugênia Veríssimo Veríssima e do Conde César Altíssimus Batista Veríssimo Veríssimil.
Apesar de meu berço nobre e sangue nitidamente azul como lapis lazuli, abandonei a tradicional mansão da família Veríssimo Veríssima in Veríssimil, localizada em meio ao fausto e ostentação do nobilíssimo bairro da Tijuca, para entregar-me a uma vida completamente asceta, desprovida de qualquer benefício material para seguir minha vocação inata.
- De santo?
- Sim senhor, saiba que... bom, é óbvio que no esplendor de sua sapiente onisciência com certeza o Senhor sabe então... bom... ééé...
Sabemos que sou considerado um santo pelo povo.
- Que povo?
- Ora Senhor! O povo escolhido é claro!
- Escolhido por quem?
Puta que pariu! Ele só sabe fazer perguntas a porra do tempo intei...
Peraí! Se ele é Deus... é claro que você é Deus... hum...
É claro que ele é deus e compreenderá enquanto estiver lendo a minha mente... não que ele tenha este hábito, como se eu o estivesse acusando de ser entrão... é claro que ele sabe que minha fé, respeito, dedicação e tudo o mais... são absolutas! Isto é um fato! Mas é que... merda!
É melhor não pensar!
Olho para ele interrogando-o, como quem pergunta: Você está lendo minha mente?
Se estiver, mexa então a sobrancelha direita... legal, mas se isso não tiver sido só uma coincidência, além de mexer a sobrancelha direita, coce o nariz e dê um pigarro...
Nada.
Mas ele pode estar me testando, ou tirando uma com a minha cara... não, quer dizer... ele é perfeito, é bacana...
Porra! Como é que se faz com alguém que supostamente pode ler a sua mente?
- Senhor! Não me torture!
Sabes que sou teu discípulo mais fiel...
- Que mané “sabes” ou “teu”, fala relaxado Teófilo, sem enfeitar; parece até que você está falando igualzinho ao Thor nas revistinhas da Marvel!
Você é carioca e não é tão velho, pode ser você mesmo que não ligo!
Afinal, se alguma coisa no Rio de Janeiro viesse realmente a me incomodar eu já teria transformado tudo e todos em sal, igualzinho ao modo que eu fiz com Sodoma e Gomorra... ou será que eu fiz isso só com Sodoma? A idade é uma merda! A gente sempre acaba esquecendo um ou outro detalhe...
Teófilo ficou imaginando a realização desta profecia em tom de ameaça, mas aos poucos começou a agradar-lhe a idéia de ver eternizada em sal a imagem de D. Maria Eugênia Veríssimo Veríssima congelada no tempo, com sua boca empalhada de perua... já notaram como é que toda madame perua da alta sociedade parece que tem os lábios e todo o interior da boca empalhados?
Parece uma evasão de sua promiscuidade inata pela rachadura de sua represa moral e estética.
Seria bem engraçado ver D. Maria Eugênia Veríssimo Veríssima empalhada em um “oh!” surpreso por perceber-se transformada em sal!
Ahhhhhhhhhhh! Malditos pensamentos!
Passei a minha vida inteira em total e absoluto controle de meus pensamentos e emoções, purificando-me à custa dos maiores sacrifícios possíveis e imagináveis para justamente hoje pensar em tanta bosta junta!
Parece até sacanagem!
Parece que todas as tentações resolveram me incomodar hoje, só para me despurificar.... – será que existe esta palavra? – Bom, para me macular perante a presença de Deus...
Peraí! Deve ser isso! É ele!
Ele deve estar por aqui, me atacando, encucando pensamentos ruins em minha cabeça.
Tudo para impedir que eu seja “o escolhido” perante o Senhor... é... sim, é um plano desde o princípio, porque eles, as forças do mal, sabiam, sabem, sempre souberam que eu seria “o iluminado”, o que traria luz à raça humana.
E tudo o que aconteceu agora faz sentido, é verdade, tudo o que aconteceu, inclusive o meu envolvimento com Berenice, com aquela... aquela... traidora nojenta!
Aquela traidora foi mandada por ele para me derrubar, me destruir, impedir minha franca ascensão.
Que safadeza!
Um planinho desde o início e que quase embarquei, quase casei com ela..
Quase tive filhos, que nasceriam com aqueles lindos olhos castanhos, talvez moreninhos como ela, um bando de indiozinhos de cabelos negros e olhinhos puxados, chinoquinhas, correndo pelo quintal da nossa casa em Jacarepaguá...
Desgraçado!
Ele deve estar por aqui por perto, mas hoje ele não me escapa!
Hoje eu me vingo!
Quebro a cara dele na frente de Deus para provar-lhe que sou digno de herdar sua missão, como São Miguel Arcanjo, matador de demônios, eu hei de arrancar-lhe o negro coração com minhas próprias mãos!
- Cadê você?
- O que é que está te incomodando Teófilo?
- O que você procura?
- É ele senhor!
O capeta, cramunhão, casco-de-bode, o safadeza Senhor!
Ele está aqui debochando de sua obra, de seu poder.
Mas eu vou achá-lo e destruí-lo!
- Calma aí Teófilo! Menos!
Eu posso te garantir de que não há ninguém aqui além de nós dois!
- Mentira!
Eh... quer dizer... desculpe-me Senhor, mas você está enganado... quer dizer, você nunca se engana... mas é que... ele é muito ardiloso, o safado, o sem vergonha..
- Cale a boca Teófilo!
Eu te fiz uma simples pergunta, pode responder?
Quem sou eu?
Já sei, deve ser algo do gênero da pergunta da Esfinge a Édipo, onde a resposta é “o homem”... mas não... não pode ser, deve ser algo parecido com aqueles desenhos do He-Man, onde a resposta mais simples e boçal no fundo no fundo é a verdadeira.
- Eu sei a resposta!
Você é Deus!
- O quê?!
Rárárárárárá... rsrsrsrsrs... eu não acredito nisto!
Ai meu deus do céu! Essa é a resposta mais ridícula e hilária que já ouvi!
Minha consternação se transforma em ódio.
Esse Deus me humilha, me esculacha, me ironiza, escrotiza, faz eu me sentir um cagalhão!
- Que foi Deus?!
Onde foi que eu errei?
- Peraí! Espere um pouco Teófilo, deixe-me parar de rir... rsrsrsr... rumf... hohihihihi........ rárárárárárárárárárá!
Nunca imaginei que uma criatura pudesse rir por tanto tempo, eu nem sequer conseguia ver o motivo para tanta graça.
Ah! Vai pra porra, deus babaca do caralho!
Fiquei mais de seis horas esperando ele terminar de gargalhar, até anoitecer, quando inesperadamente retomou o tom de seriedade e disse:
- Isso é óbvio Teófilo!
Que eu sou Deus eu sei, você sabe, todo mundo sabe, até quem não acredita em mim sabe quem eu sou.
Aliás, eu e o Papai Noel somos os desacreditados mais conhecidos do mundo!
É melhor você ir embora Teófilo.
Vá e aprenda alguma coisa, só volte aqui quando tiver a resposta.
Não havia jeito, nada ocorre em minha cabeça que possa reverter a situação, nenhuma idéia brilhante.
Muito contrariado, apanho minha mochila de peregrino, meu bastão e puxo Rosaly pelo rabo, erguendo-a e sacudindo do seu esguio corpo de camurça a areia do deserto.
Frustrado eu só consigo pensar na caminhada homérica que terei que perfazer até chegar à cidade mais próxima...
- A propósito Teófilo...
Volto meus olhos clementes para ele.
- Tome um banho, faça a barba e corte os cabelos.
Você está um lixo!