- Já se pegou observando uma mosca escapar de uma janela, chocando-se contra o vidro, conquanto a abertura está logo ao lado?
- Todo o tempo, mas você mais do que eu, suponho.
- Sabe, outro dia eu estava andando por Apocriphia...
- “Apocriphia”?
- O que? Ah, sim... Minha biblioteca.
- Apropriado!
- Bem, eu me perdi folheando alguns poucos livros, e me detive sobre a Bíblia... Fazia alguns anos, que não a abria, sabe?
- Suponho que sim.
- Estava suja, empoeirada, enfurnada em um canto de prateleira, condenada a servir de lar para as aranhas...
- E não foi sempre assim?
- Não! Houve tempos, em que ela era bela, sua capa dourada reluzia a luz da esperança, e eu a tinha exposta em minha sala de estar, com pompa e orgulho...
- E o que houve então?
- Ah, você... Você sabe, não é?
- Suponho que sim, mas gostaria de ouvi-lo de sua boca.
- Dane-se!
- Ah, eu te amo! Grande criança é você, não? Bem, continue sua narrativa, quais foram as surpresas que lhe acometeram após tantos anos de inércia? Ou seria... letargia?
- Deparei-me com aracnídeos e insetos fossilizados, perdidos entre as páginas, mortos pelas palavras de Davi, Paulo...
- E pelas suas? Afinal, mesmo que re-interpretadas, elas estão lá!
- Um caduceu esmagado.
Diego Aguiar Vieira