Entry: O Inventor Jun 19, 2004



O Inventor

Depois de anos de pesquisas, um inventor descobriu a arte de fazer fogo. Levou as ferramentas às regiões cobertas de neve ensinou a uma tribo a arte — e as vantagens— de fazer fogo. Absortas com a novidade, as pessoas nem se lembraram de agradecer ao inventor, que foi embora sem ser notado. Sendo daqueles raros seres humanos dotados de nobreza, não cultivava desejos de ser lembrado ou reverenciado. Tudo que desejava era a satisfação de saber que alguém se beneficiara de sua descoberta.

A tribo seguinte que ele procurou estava tão ansiosa para aprender quanto a primeira. Mas os sacerdotes locais, com inveja da influencia do estranho sobre o povo, mandaram assassina-lo. Porém, para afastar qualquer suspeita de crime, entronizaram um retrato do Inventor no altar-mor do templo e organizaram uma liturgia destinada a reverenciar e manter viva sua memória. Tomaram o máximo cuidado para que nem um só preceito liturgico fosse alterado ou omitido. As ferramentas para fazer fogo foram guardadas em um relicário e delas dizia-se que curavam todos os que nela tocavam com fé.

O próprio sumo-sacerdote realizou a tarefa de compilar uma Vida do Inventor, que se tornou um livro sagrado. Nele, sua extrema bondade era citada como exemplo a ser seguido por todos, seus feitos elogiados e sua natureza sobre-humana transformada em artigo de fé.

Os sacerdotes cuidaram que o livro fosse preservado e transmitido às futuras gerações, enquanto, com autoridade, interpretavam o sentido das palavras do Grande Inventor e o significado de sua vida e morte virtuosa. E implacavelmente puniam com a morte ou a excomunhão quem se afastasse da doutrina.

Ocupado com essas tarefas religiosas, o povo se esqueçeu completamente da arte de fazer fogo.


   1 comments

Beto Garcia (Magneto)
June 20, 2004   03:37 PM PDT
 
Bacana! Mas poderia ficar mais implícita a relação com a figura Nazarena! Vamos forçar estes leitores a pensarem mais! :)

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